Brasil tem a maior diversidade de plantas do mundo

Após sete anos de trabalho, um grupo brasileiro de 575 botânicos e de outros 14 países concluiu o mais amplo levantamento sobre a diversidade de plantas, algas e fungos do Brasil, agora calculada em 46.097 espécies.

O Brasil ostenta a posição de líder mundial em diversidade de plantas, com um total de 56.200 espécies catalogadas, sendo impressionantes 43% delas exclusivas do território nacional. Essa marca supera a contagem de 40.989 espécies relatadas na primeira versão do levantamento em 2010. A riqueza botânica brasileira não mostra sinais de estagnação, uma vez que novas espécies continuam a ser identificadas e descritas em periódicos científicos. Em média, os botânicos introduzem aproximadamente 250 novas espécies a cada ano, destacando a extraordinária biodiversidade do país.

Em dezembro de 2023, a segunda versão da Lista de Espécies da Flora do Brasil foi minuciosamente detalhada em cinco artigos, todos publicados na revista Rodriguésia, vinculada ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ).

Durante o processo de levantamento, um grupo de botânicos fez uma descoberta notável: a identificação de uma nova espécie de bromélia, a Aechmea xinguana, que apresenta uma inflorescência de tonalidade vermelha.

Essa espécie foi encontrada em uma área de mata já submersa pelas águas do reservatório da usina de Belo Monte, Pará. Rafaela Campostrini Forzza, pesquisadora do JBRJ e coordenadora do levantamento, lamentou a perda das populações naturais da Aechmea xinguana na área inundada, embora alguns exemplares tenham sido resgatados e mantidos na casa de vegetação do reservatório.

O árduo trabalho continua, e neste mês de março, especialistas de cada grupo de plantas estão embarcando na próxima fase, que envolve a inclusão de descrições detalhadas, distribuição geográfica e outras características de cada espécie no banco de dados online da Flora do Brasil.

Este esforço servirá como alicerces para o Flora do Brasil Online, contribuindo para integrar o World Flora Online, uma compilação abrangente de informações sobre todas as plantas conhecidas do mundo.

Em paralelo às trilhas dos botânicos, os zoólogos também se uniram nesse esforço. Em dezembro de 2015, apresentaram a primeira versão do Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil (CTFB). Esse catálogo é resultado do trabalho colaborativo de cerca de 500 especialistas, que dedicaram-se a detalhar informações sobre 116.092 espécies, predominantemente artrópodes, compreendendo quase 94 mil espécies, representando impressionantes 85% do total catalogado até o momento. Esse empenho conjunto visa a construção de uma base sólida para o entendimento e preservação da rica biodiversidade brasileira.

Acesse o Ctálogo AQUI

Planta feminina de Gnetum leyboldii do Parque Estadual Cristalino, no Mato Grosso, uma das seis espécies de Gnetum da Amazônia: o que parece frutos são na verdade sementes Denise Sasaki/Programa Flora Cristalino

Desenvolvido a pedido do Ministério do Meio Ambiente, com apoio financeiro do governo federal, instituições privadas e fundações estaduais como a FAPESP, o projeto Flora do Brasil revela que a Amazônia abriga a mais expressiva diversidade de gimnospermas, o grupo de plantas sem frutos e com sementes expostas. Essas gimnospermas foram predominantes de 300 milhões a 60 milhões de anos atrás, durante a era dos dinossauros. Entre os representantes mais notáveis estão as árvores em formato de cone, características do clima frio do sul do país, como a araucária, que conta com uma única espécie no Brasil, e quatro espécies de Podocarpus.

Curiosamente, na região Norte, espalhadas pelas matas, encontram-se seis espécies de cipós de folhas largas pertencentes ao gênero Gnetum. Essas plantas prosperam em climas quentes e úmidos ao redor de árvores. Suas sementes, de tonalidade vermelha ou lilás, assemelham-se tanto a frutos que já confundiram até mesmo os botânicos. Essa descoberta destaca a riqueza e a peculiaridade da flora amazônica, oferecendo insights valiosos sobre a evolução e a adaptabilidade das plantas ao longo do tempo.

Rhipsalis flagelliformis, espécie de cacto exclusiva do Rio de JaneiroGerardus Oolstrom

Com cerca de 50 mil exemplares de espécies nativas catalogadas, o Brasil destaca-se como o país continental com a maior diversidade de espécies do mundo, superando nações como China, Indonésia, México e África do Sul. Em termos de espécies endêmicas, o país fica atrás apenas de grandes ilhas como Austrália, Madagascar e Papua Nova Guiné, cujo isolamento propicia o surgimento de variedades únicas, e de uma única área continental, o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul.

Embora o total de espécies não alcance os 60 mil das estimativas mais otimistas, ele ainda supera a diversidade de plantas da Colômbia, anteriormente considerada o país sul-americano mais diversificado. Além disso, é mais do que o dobro das 22.767 espécies descritas na monumental Flora brasiliensis, uma coleção de 15 volumes e 10.367 páginas elaborada por 65 botânicos de diversos países sob a coordenação de Carl Friedrich Philipp von Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, publicada entre 1840 e 1906. Isso reforça a notável extensão e riqueza da flora brasileira, destacando sua importância global na biodiversidade.

Na Flora brasiliensis destaca-se por apresentar predominantemente o grupo das angiospermas, que compreende 32.813 espécies, caracterizadas por sementes protegidas por frutos, sejam eles carnosos ou secos. Dentro desse grupo, encontram-se diversas plantas significativas, como as árvores ipê e jacarandá, a roseira e outras espécies ornamentais, além de culturas essenciais na alimentação humana, como feijão, amendoim e milho.

Apenas no grupo dos feijões, representados pelos gêneros Vigna, Canavalia e Phaseolus, a flora brasileira registra aproximadamente 30 espécies, entre nativas e naturalizadas. Vinicius Souza, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), que contribuiu para a produção e organização dessas informações, destaca o potencial pouco explorado dessas espécies para a alimentação humana. Este enfoque ressalta a vasta variedade de recursos vegetais presentes no Brasil, oferecendo perspectivas valiosas para pesquisas futuras e a promoção da diversificação alimentar.

A disseminação das angiospermas ocorreu em um período de clima quente e úmido, sucedendo a extinção dos dinossauros. Essas mudanças climáticas foram desfavoráveis para a maioria das gimnospermas, que hoje são raras em todo o mundo, com os botânicos identificando apenas 30 espécies, das quais 23 são nativas, desse grupo no Brasil.

Por outro lado, as samambaias e as licófitas, plantas que não produzem sementes nem flores e se reproduzem por meio de esporos, ambas com origens antigas, são representadas por impressionantes 1.253 espécies no Brasil. Algumas dessas plantas alcançam alturas notáveis de até 20 metros, evocando as variedades gigantes que dominavam a paisagem terrestre há cerca de 300 milhões de anos.

Próximos passos

Os botânicos celebram a conclusão de mais uma fase do projeto com uma sensação agridoce, pois reconhecem que a distribuição geográfica das amostras de plantas coletadas, base para o trabalho realizado, não foi equilibrada. Havia uma disparidade significativa, com uma concentração maior de informações nas regiões Sul e Sudeste, onde se encontram a maioria das coletas, grupos de especialistas e instituições de pesquisa. Em contrapartida, outras partes do país apresentam uma representação substancialmente inferior.

Enquanto no Rio de Janeiro havia uma média de 5,8 coletas por quilômetro quadrado (km2) e no Espírito Santo, 3,9 por km2, nos estados do Pará e Amazonas, essa relação era drasticamente menor, atingindo apenas 0,10 e 0,17 coletas por km2, respectivamente. Essa discrepância ressalta a necessidade de uma abordagem mais equitativa na coleta de amostras, a fim de garantir uma representação mais abrangente e precisa da diversidade botânica em todas as regiões do Brasil.

O estado do Amazonas, apesar de sua vasta extensão e importância ecológica, aparece em terceiro lugar entre os estados com maior diversidade, ficando atrás de Minas Gerais, que lidera, e da Bahia. Os botânicos expressam insatisfação com esse resultado, sugerindo que o número de coletas na região ainda não atingiu seu potencial total. Vinicius Souza comenta que no Amazonas poderia haver pelo menos mais 20 mil espécies ainda não amostradas.

São Paulo, por sua vez, ocupa a quarta posição em termos de diversidade. Além de ser um destino frequente para expedições botânicas, o estado apresenta uma variedade notável de relevos, com planícies a oeste e montanhas a leste, e diversos tipos de vegetação que propiciam a formação de novas espécies. José Rubens Pirani, professor do Instituto de Biociências (IB) da USP, destaca que São Paulo serve como ponto de transição para diferentes formações vegetais, abrangendo desde climas frios do sul até ecossistemas de clima quente, como o Cerrado. Essa diversidade geográfica contribui para a riqueza botânica do estado. (ver tabela).

Infelizmente, mantivemos a distorção do trabalho de Von Martius, que coletou principalmente na Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado e andou pouco pela Amazônia”, comentou Rafaela. “Precisamos de um plano nacional de mapeamento das espécies de plantas da Floresta Amazônica para resolver o problema da subamostragem do maior bioma brasileiro, que representa metade do território nacional.”

Em aclimatação na capital paulista: flor e fruto de Euphorbia attastoma, cacto endêmico da serra de Grão Mogol, MG, com látex fosforescente Eduardo Cesar

Com base em informações armazenadas em herbários e em plataformas online como o Reflora, que conta atualmente com 1.390.218 registros de plantas nativas. O levantamento identificou a Mata Atlântica como o bioma com a maior diversidade de angiospermas, samambaias, licófitas e fungos.

Essa classificação é atribuída à quantidade significativa de coletas realizadas nesse bioma, bem como à variedade de altitudes, climas e latitudes presentes na região. A Amazônia ocupa o segundo lugar em diversidade, seguida pelo Cerrado, que se posiciona em terceiro. Esses resultados destacam a importância da preservação da Mata Atlântica, não apenas pela sua riqueza intrínseca, mas também pelo papel crucial que desempenha na manutenção da biodiversidade nacional.

Ainda estamos longe dos prováveis números reais”, observou Souza. “Quanto maior o número de coletas por região ou estado, maior o número de espécies.” Uma evidência de sua afirmação é que, por causa das coletas mais numerosas, a diversidade de plantas do Tocantins aumentou 70% e a do Piauí, 40%, em relação ao registrado na primeira versão da Flora, de 2010. “Não estávamos trabalhando lá e as plantas não apareciam”, comentou Pirani.

Em 2013, junto com sua equipe, o pesquisador identificou uma nova espécie de arbusto, batizada de Simaba tocantina. Essa descoberta ocorreu em uma área de Cerrado pouco explorada, situada no interior e nas proximidades do Parque do Jalapão, localizado no leste do Tocantins. Essa região é caracterizada por vastos areais, semelhantes aos descritos no livro “Grande sertão: veredas” de Guimarães Rosa.

A botânica paulista Daniela Zappi, pesquisadora do Kew Gardens em Londres, expressou preocupação com a rápida expansão das novas plantações de soja e cana-de-açúcar em áreas menos estudadas da região Norte. Ela enfatiza que o desmatamento está ocorrendo a um ritmo muito mais acelerado do que a capacidade de conhecer e estudar a floresta.

Zappi destaca o sentimento de urgência, afirmando que parece que não haverá tempo suficiente para chegar a essas áreas, especialmente no chamado Arco do Desmatamento, que se estende do norte do Mato Grosso ao sul do Pará. Esse cenário reflete os desafios enfrentados pelos pesquisadores na corrida contra o desmatamento para documentar e compreender a biodiversidade antes que ela seja irremediavelmente perdida.

Especialista em cactáceas, Daniela Zappi destaca a notável diversidade desse grupo no Brasil, com 103 espécies em Minas Gerais e 98 na Bahia. No entanto, ela alerta para a situação crítica, com 32% das 260 espécies de cactáceas enfrentando graus variáveis de risco de extinção. As áreas que essas plantas ocupam estão sendo constantemente substituídas por plantações de eucalipto, atividades agrícolas e mineração.

Os cactos são explorados como plantas ornamentais, colhidos para alimentação do gado e uso humano, além de serem uma fonte de medicamentos. Infelizmente, muitas vezes essa exploração não é sustentável, e as populações originais não são devidamente repostas. Outro desafio é que muitas espécies de cactos crescem exclusivamente em áreas específicas, como é o caso do Arrojadoa marylaniae, um cacto colunar com anéis de flores vermelhas que se desenvolve unicamente sobre uma jazida de quartzo branco de valor comercial no interior da Bahia.

Esses fatores ameaçam a sobrevivência dessas espécies únicas e ressaltam a urgência de práticas de conservação mais eficazes.

Flor de japaranduba (Erythrochiton brasiliensis), arvoreta do interior de trechos inalterados da Mata Atlântica úmida Eduardo Cesar

O processo de identificação e estudo da distribuição geográfica de cada espécie está integrado a um plano de ação que visa compreender e promover a polinização e germinação das espécies em maior risco de extinção. Além da colaboração com pesquisadores acadêmicos, o trabalho de preservação envolve a participação ativa de indivíduos não acadêmicos.

Um exemplo é Gerardus Oolstrom, um viveirista de cactos comerciais em Holambra, no interior de São Paulo, que colaborou com botânicos acadêmicos na identificação de uma nova espécie, a Rhipsalis flagelliformis. Ele teve o primeiro contato com essa espécie ao vê-la cultivada em um sítio que pertencia ao paisagista Roberto Burle Marx, no bairro de Guaratiba, na cidade do Rio de Janeiro.

Essa colaboração entre colecionadores e grupos de pesquisa destaca a importância da integração de diferentes setores da sociedade na localização e preservação das espécies. A união de conhecimentos e esforços é essencial para enfrentar os desafios de conservação e garantir um futuro mais sustentável para a diversidade botânica.

Rafaela Campostrini também colabora com o advogado Elton Leme, que, apesar de ser um botânico não profissional, está envolvido na caracterização de três novas espécies pertencentes ao gênero Encholirium. Essas plantas são encontradas em ambientes rochosos em morros localizados na Bahia e em Minas Gerais.

Além disso, pesquisadores da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte adotaram uma abordagem criativa para localizar o faveiro-de-wilson, uma árvore rara. Espalharam cartazes com o título “Procura-se”, contendo fotos e informações sobre a espécie, e conseguiram localizar vários exemplares com a colaboração dos moradores do interior de Minas Gerais. Essa iniciativa destaca a importância do envolvimento da comunidade na conservação da biodiversidade, ressaltando como a colaboração entre pesquisadores e a população local pode ser crucial para a preservação de espécies ameaçadas.

(ver  Pesquisa Fapesp no 235).

Artigos científicos
COSTA, D. P. e PERALTA, D. F. Bryophytes diversity in BrazilRodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1063-71. 2015.
MAIA, L. C. et al. Diversity of Brazilian FungiRodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1033-45. 2015.
MENEZES, M. et alUpdate of the Brazilian floristic list of Algae and Cyanobacteria. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1047-62. 2015.
PRADO, J. et al. Diversity of ferns and lycophytes in BrazilRodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1073-83. 2015.
THE BRAZIL FLORA GROUP. Growing knowledge: an overview of seed plant diversity in BrazilRodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1085-113. 2015.